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1984

“O grande irmão está de olho em você”

(George Orwell)


O grupo Deleitura foi criado para fazer da leitura momentos de entrega e de sublimação com a escrita. Entretanto, às vezes, carrega-se em temas mais pesados, como na sugestão deste livro da nossa série 1984.


1984 é um livro muito resenhado ao longo dos anos e difícil trazer algo novo para ele, a não ser a partir do contato com o nosso momento histórico, em que, no Brasil, o presidente Bolsonaro ensaia os primeiros embates contra as instituições democráticas, após o período ditatorial de 1964.


A obra ajuda a explicar as idas e vindas do presidente no constante labiríntico mundo do duplipensamento.


O duplipensamento pode ser sintetizado na prática constante de o presidente falar e voltar atrás, dizer e depois reclamar que a mídia não entendeu muito bem o que foi dito, de bradejar que estão todos contra ele, no sentido de que falar e não falar pode significar a mesma coisa.


É, no fundo, saber e não saber, estar consciente de mostrar-se cem por cento confiável ao contar mentiras construídas laboriosamente, por meio de fake news ou qualquer outro método, defender ao mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias e acreditando nas duas, como a aplicação ou não da hidroxicloroquina para combater a Covid-19, que assolou o mundo neste ano de pandemia 2020.


Jair Bolsonaro se propala como um o guardião da democracia; esquece tudo que se pretende esquecer, quanto às sucessivas insistências para redesenhar a história brasileira e protagonizar uma nova compreensão de que a terra é plana. Em uma sutileza, na qual se induz conscientemente à inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose realizado um pouco antes com seus seguidores, o gado.


1984 é um livro distópico em que se destaca a vigilância como forma de controle das pessoas.


Ele foi escrito em 1944, antes de terminar a Segunda Guerra Mundial e é um alerta de como os governos autoritários se constroem, por meio da redução do pensamento das pessoas e de sucessivas intimidações em direção a um senso comum, de personificação a um líder e aclamação de um pensamento pouco complexo.


George Orwell chama atenção em cartas que escreveu para amigos que todos os movimentos nacionais em todos os lugares, até mesmo aqueles que se originam da resistência à dominação alemã, pareciam assumir formas não democráticas em torno de alguns Führers sobre-humanos (Hitler, Stalin, Salazar, Franco, Gandhi e De Valera são exemplos variados) e a adotar a teoria de que o fim justifica os meios.


O que espanta e a aborrece é o quanto pouco avançamos em relação a melhor condição de vida, mesmo ciente de todos esses métodos. “E quando digo isso, não me refiro a condições materiais que certamente já foram alcançadas. Me refiro a evolução como humanidade. Evolução em direção ao bem coletivo, lembrou Clarice. Para ela, parece que tudo se contamina no contexto autoritário.

O capitalismo trouxe enorme progresso, mas não o dividiu e só faz tornar a vida da maioria pior. O comunismo, uma ideia mais igualitária, nunca deu certo porque se faz em parte no espírito humanos de ganância e em parte porque para se defender e se manter tem que jogar o jogo de competição do sistema que quer combater.


A compreensão do grupo Deleitura é que, nessa era tecnológica, o mundo tem de ser mais fraterno, mais amoroso e mais solidário para impedir que as informações nocivas, vindas de todos os lados, não nos contamine.


O livro 1984 é sempre a abertura para questionamentos obscuros. Essa leitura ajuda a abrir, mais ainda, os olhos para o avanço do totalitarismo no Brasil e no mundo, seja lá de que cor for.


“Esse Movimento Brasil Conservador está fazendo estragos nas mentes humanas. O pensar no outro como forma de modificar essa situação será, ainda que lenta, a única saída. O pensar coletivo ainda deverá ser o caminho. Não devemos nos contaminar com esse movimento de ódio, nunca”; essa é solução possível para essa distopia não se tornar mais uma vez realidade.

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