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Carta do Diabo a seu aprendiz

“Há desejos reprimidos tanto no inferno quanto na terra.


E qual o problema do tio Maldonado a convencer o sobrinho Vermelindo a ganhar a alma do paciente, na brilhante obra Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C. S. Lewis?

É que ele pode estar mentindo. Se confia no satanás pelo simples fato de ele ser o diabo, a despeito dos tropeços que a vida venha a nos causar. Essa é a regra número um e todas as subsequentes. Curvamos ao belzebu pelo medo. Por aversão de chifres dissimulados no distinto galhardo do nobre.

Cartas de um diabo a seu aprendiz foi o livro escolhido no início deste ano se 2022 para trazer um pouco de sátira ao grupo Deleitura, que vinha de uma sequência de obras pesadas, como 1984, de George Orwell. Logo na volta da pandemia, as pessoas buscavam humor, leveza. Nem todos, entretanto, julgaram o livro tão engraçado quanto a sinopse. E não é uma obra leve, porque é pensamento sobre o certo e errado sobressalta.

A obra foi escrita por C. S. Lewis em 1940 para presentear o amigo J. R.R Tolkie; por isso ganha encantamento. Alguns, a conceberam como uma tentativa de nos converter ao cristianismo, sempre nos convidando a conhecer mais o parâmetro, aquilo que vem de Deus e da santa igreja. Nesta compreensão, então a aceitação ao convite sobre a dualidade céu e terra, bem e mal, alto e baixo, pecado e pureza.

Outros entenderam como conversa fiada do Satanás e de como caímos nas artimanhas silenciosas da existência. E como o tinhoso não suporta o deboche, a zombaria, aqui nos encontramos com ele para algumas risadas, mesmo que dele não achamos a menor graça.

Maldonado nem precisa fazer muito que nos embolemos sozinhos. Mas, sim, ele é perigoso, está em toda parte, no meio do redemoinho, como anotou Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão Veredas; então se afaste por precaução.

São trinta e uma cartas e o brinde final ao diabo, do qual não recomendo um gole do champanhe. Carminar a banalidade do mundo pode auxiliar; alijar as pessoas do cotidiano com argumentos e teorias; convidá-lo para igreja apenas para ver os amigos, sem muito compromisso com oração que pequenas ações podem ser satânicas.

Contudo, é ele sim. É o diabo quem nos incute a ter raiva de quem está próximo, que nos faz se irritar com a sobrancelha arqueada do conjunge ou com as rugas da nossa mãe. Isso sempre desconfiei! Será que Maldonado nos convidaria a apreciar aquele que está do outro lado da rede, em telas virtuais, e todas as subcelebridades do nosso tempo?

Como jornalista, apreciei muito a recomendação para ofertar sempre a pesquisa mais recente, a última notícia como tentação para o desvio da alma. Não precisamos de notícias falsas para confundir as pessoas, como nos fazem acreditar, mas apenas ofertar o último exemplar.

No nosso tempo, o convite para a guerra é a melhor diversão para o belicoso, em que ele gargalha a todo o momento enquanto seguimos anestesiados pelas crueldades da batalha. Sim, o intuito do capeta é confundir-nos. Quanto mais nos mergulhamos em nós mesmos, mais ao encontro dele seguiremos. Você acredita?

O diabo apelou, saiu da brincadeira. Não suporta deboche.


Livro: Cartas de um diabo a seu aprendiz

Autor: C.S. Lewis

Páginas: 206

Resenha: Catarina França

Tradução: Gabriele Greggersen

Editora: Thomas Nelson Brasil




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