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O Deus das pequenas coisas

Thomas Mathew parecia saber quem podia destratar e quem não podia. Policial tem esse instinto.”


homens imprudentemente poeticos

Li O deus das pequenas coisas entrecortada por obrigações de um mestrado. Leituras falhas pela memória, que me obrigou a voltar para desarmar as narrativas. E que narrativa? A autora Arundhatati Roy estava iluminada por Deus quando pensou a bela história!

Os personagens são pessoas do cotidiano da Índia, um povo em subalternidade à colonialidade inglesa. Saltam as páginas para construir nossa imaginação. E a lição de que tudo pode mudar em um dia, especialmente naquele em que você deseja fugir do desamor de quem, por suspeita, possa te um amar um pouco menos, de haver amor de montão.

Um livro sobre marxismo que cruza uma cultura de castas milenar indiana, a partir da influência na fábrica Paraíso Picles & Polpas. Uma doutrina que se insinuara em Kerala sem questionar valores tradicionais.

Parece ao leitor que os personagens não são responsáveis pelo que fazem. Estão moldados pelo tempo, sem poder vencer os desígnios marcados das castas, e vão apenas mancando em direção a um futuro desconhecido.

A história principal conta a vida dos gêmeos Estha e Rahel: lindas flores bivitelinas que nascem do ventre de Ammu – mulher divorciada e violentada em um universo de desamores. Ou, segundo Ammu, uma dupla de pequenos sapos absortos na companhia um do outro, passeando de braços dados numa rodovia de tráfego rápido.

E o sacolejar pela breve passagem de Sophie Mol, a filha do preguiçoso e ilustrado oxfordIndiano Chako com a inglesa Margaret Kochamma. Os gêmeos amargam uma culpa do que não produzem por todo, com o acidente de Sophie Mol, a despeito do remar dos doces em copotas besuntando suas pequenas existências por meio de um barco náufrago.

Tal qual o livro partido e lido em dois momentos pela resenhista, a autora também conta a história dos gêmeos em dois momentos: a partir da ida de Estha aos sete anos para Calcultá - depois de uma aventura malsucedida aos sete anos com o remar do barco - e sua volta aos 23 anos à Ayemenem, em que reencontra a irmã Rahel.

É uma história de confiança e desconfiança entre pessoas. De Mammachi, a matriarca que dá início à fábrica a contragosto do marido - um entomologista ressentido pela falta de reconhecimento acadêmico pela história da mariposa que descobrira - à Baby Kochamma, mulher desgostosa com a partida do padre inglês e um casamento às avessas.

É Kochamma quem enreda uma mentira sobre o paravan (de casta inferior) Velutha com o acidente de Sophie Mol ao delegado Thomas Mathew, contado logo no início do livro, em que, em uma navalha, fita os seios de Ammu, em repreensão a um relacionamento entre castas. O delegado separa, assim, um dos amores mais perfeitos já lidos por esta resenhista em uma ficção.

O corpo de Ammu - mulher já disforme pela gravidez de gêmeos, de casta superior - que se agraciava com segurar escovas de dentes aos seios e bundas já caídas como forma de medir à feminilidade - enlaçado à pele do bem-talhado carpinteiro Velutha no rio que separa bem-nascidos e os maus nascidos, como pequenas gratidões da natureza.

Tal qual determina O Deus das pequenas coisas, atento ao cotidiano. Mas distraído em relação ao Deus das grandes coisas, que aspira o universo.


Livro: O Deus das pequenas coisas

Autora: Arundhati Roy

Ano: 2008 Editora: Companhia das Letras

Páginas: 331

Resenha: Catarina França



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