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O filho de mil homens

“O homem que chegou aos quarenta anos sorriu, e aquele sorriso já não era o mesmo do dia anterior. Já não era como nenhum outro do passado. Era o dobro de um sorriso.

Nunca limites o amor, filho, por preconceito



Esse foi o primeiro livro escolhido para o grupo Deleitura: O filho de mil homens, do jovem escritor português nascido em Angola, Valter Hugo Mãe.

Esse autor já tem o reconhecimento do público. Em 2007, José Saramago disse que a obra O Remorso de Baltazar Serapião era um “tsnunami literário”.

A obra elogiada por Saramago conta sobre violação de uma mulher em um mundo machista. Por suposto, a obra tenha conexão com o livro aqui resenhado, que também fala de preconceitos, sem ser acusatório.

O filho de mil homens fala de hipocrisia e ideias fantasiosas da sexualidade e das supostas deficiências das pessoas. Mas não como sinônimo de injustiça social ou como denúncia. Mas como símbolo de uma libertação, para o qual só aqueles que assumem uma tristeza genuína podem reclamar esperança.

A libertação ocorre a partir do enlace entre os personagens. Vida que se tece com outra vida, de modo que o leitor se compadece ao final das almas mais degradadas.

Matilde repudia o filho Antonino, que é homossexual. Maria, renega a filha Isaura, que perdeu a virgindade antes do casamento; a anã espiã o pecado pelas mulheres invejosas de homens; Gemúndio padece o abandono da velhice e compra o cuidado de Rosinha; que, por sua vez, sofre o abuso de Rodrigues, que não quer assumi-la como esposa.

A pequena de sete anos - que aparece subitamente como elo de redenção da trama - padece o abandono pela morte da mãe Rosinha, desejosa de comer animal mágico no dia do casamento, por onde a trama ganha relato mágico.

Resumo: Pequenez dos personagens

Isolados em um mundo de condenação extrema, cada personagem de Valter Hugo Mãe é reduzido à angústia e à pequenez. Ao se verem confrontados com outras experiências, como na ligação com a pequena Matilde, são capazes de recuperar sua integridade e levados à capacidade de amar.

O filho de mil homens foi escrito em 2011. O quinto romance do autor lembra por vezes Clarice Lispector, pela trama simples, súbita epifania e grande densidade psicológica dos envolvidos.

Lembra ainda Garcia Marques, pelo realismo mágico, que nos distrai em vinte capítulos tão bem contados quanto em Macondo, em Cem anos de solidão.

A história que dá título ao livro e amarra às demais inicia pelo drama do pescador Crisóstomo, que tem o sonho de ter um filho. Ele, em delírio, se apodera de um boneco para preencher vazios e transforma sua inquietação em atitude, cheia de significados.

O filho adotado por Camilo é filho da anã, que morre no parto por não abarcar uma natureza maior que a que usualmente lhe cabia. A história da anã nos conta como as pessoas falsamente nos desejam o bem e podem deixar de gostar da gente, quando estamos realizados.

O autor brinca com as palavras de modo a deixar a anã ainda mais pequena. A partir da narrativa, descortina a hipocrisia de mulheres que ficam com raiva quando descobrem que a anã saiu com vários homens da cidade.

Após a morte da anã, Camilo vai viver com o velho Alfredo. O velho cuidou do menino com o aporte de uma fotografia da avó Carminda, que tanto sonhou com uma criança, mas não gozou da força para desabrochá-la.

Camilo é um menino bem-educado e esmerado nos livros, mas ainda bruto no que refere ao cuidado com o outro.

Cabe a Crisóstomo corrigi-lo, ensiná-lo a compreender a diferença, a falar das pessoas com honestidade.

Soluções inusitadas

O livro traz soluções inusitadas para o abandono, como o casamento da mulher deflorada com o marica Antonino - desenredo que não funciona, é claro -, a não ser para desenvolver um laço de amizade genuíno entre ambos.

Reproduz ainda o pensamento de personagens segundo o qual uma violação pode ser o caminho necessário para os infelizes. Ideia compartilhadas em meios machistas, para quem o ultraje é o amor necessário para quem não o merece ou para quem desafia a ordem natural das coisas, ou ainda, para quem não goza de beleza.

Crisóstomo, diferentemente, aos 40 anos de idade, está pronto para assumir outro tipo de amor, capaz de recompor violações e que resgata novamente a alma feminina. Isaura também está pronta para recebe-lo, porque já se envenenou por imposições alheias.

Trecho do livro:

“Quando se espera uma vida inteira, perdem-se as exigências e tudo se torna muito geral. Pouco importam os pormenores. Cria-se uma urgência ao corpo e passamos a ser uma oferta, uma porção generosa de gente e depositamos a sorte ou azar para que nos levem, nos querem bem ou mal e nos deem uso”, afirma em um dos mais belos trechos do livro.

Saga de personagens

E é essa a saga dos personagens que faz aos poucos as metades das coisas se recomporem e parecerem em dobro. Que traz o dobro de sorrisos e faz com que pessoas tão desencaixadas possam usufruir de um amor pleno, como em uma nova família.

A um dado momento da nossa vida, segundo Crisóstomo, é preciso amar sem olhar a quem.

Quem não tem filhos mata cem a cada dia, pensava Matilde cada vez que um vizinho lhe sugeria matar o filho homossexual. Mas quem é Filho de mil homens, entretanto, desenvolve a capacidade de amar, nem que seja na presença de outro.


Livro: O filho de mil homens

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Biblioteca Azul

Páginas: 220

Resenha: Catarina França


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