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Quarto de Despejo

Quando eu não tinha o que comer, quando dava vontade de xingar, eu escrevia.”

Quarto de Despejo é uma narrativa em forma de diário, com muita densidade de conteúdo. A autora Carolina de Jesus narra sua experiência na favela do Canindé, em São Paulo, com os três filhos. É um livro verdade, no qual alguns nomes a catadora de papel omite por compaixão ou afeto; outros ela denuncia, por mau comportamento.


A ausência da moral está intrínseca aos moradores das favelas? Não, mas Carolina diz que a pobreza oprime a tal ponto que faz as pessoas renegarem a condição de humanos e se voltarem umas contra as outras.


“Agora até os lixeiros avançam no que os catadores de papel podem pegar”, diz ela. “São egoístas”. A fome é a mais cortante das formas de agressão, que tira das pessoas a coragem para lutar.


Temporalidade


O relato de Carolina começa em julho de 1955 e finaliza em 31 de dezembro, após longa pausa do final de agosto ao término do mesmo ano. Ela relata o descaso e a falta de piedade com a sua condição de suja, de mulher, de subalterna na cadeia do trabalho, de mãe e negra.


Carolina traz um viés de dependência ao acreditar que os políticos podiam colaborar mais. Somente aparece na favela em época de eleição. E apelam para os letrados, como ela, para se aproveitarem do discurso eloquente. “O país”, segundo ela, “teria que ser guiado por alguém que passou fome”. A fome acachapa, faz o indivíduo pensar no próximo.


Carolina também critica o papel da igreja, que pede para serem humildes e aceitarem a pobreza com resignação. “Penso que se o Frei Luís fosse casado e tivesse filhos e ganhasse salário mínimo, aí eu queria ver se o Frei Luiz era humilde”. A revolta, segundo ela, surge das agruras da vida. Queria ela mesmo entender como o Frei descobriu que os favelados têm suas chagas.


A autora menciona o desgosto com as autoridades constituídas e com os falsos crentes da favela. Para Carolina, o juiz não tem capacidade para formar o caráter das crianças. O que lhes falta? Interesse pelos infelizes ou verba do Estado?


Machismo


Temas como o machismo e misoginia entrecortam todo o livro. As mulheres seriam muito piores que os homens, ao colaborarem com as arruaças e fofocas. “A língua das mulheres da favela é de amargar. Não é de ossos, mas quebra ossos”.


Entretanto, ela denuncia o papel pouco participativo dos homens na construção da família, ao apontar que eles fazem filhos e não se preocupam em mantê-los.


A narrativa da pessoa negra surge da observação da dependência, no sentido de que Deus ilumine o branco para que o preto possa continuar a ser feliz. O branco, segundo ela, não acolhe com desprezo, enquanto os próprios moradores da favela a antipatizavam.


O Quarto de Despejo é, no mundo de Carolina, o quintal do palácio. O palácio, a sala de visita; a prefeitura, a sala de jantar e a cidade, o jardim. Ela guardava o sorriso para as crianças, que era quem melhor compreendia seu coração.

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