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Tudo é Rio

Os homens adoeciam de uma curiosidade científica por ela, vulgarmente conhecida como tara. Se enfileiravam dispostos a qualquer migalha. E como a fome faz mais pela cozinheira do que os temperos, a puta mais vulgar do mundo gozava fama de preciosidade, faturando alto todos os dias.”


Tudo passa igual à uva passa. É essa a mensagem de Carla Madeira, ao escolher o nome do seu primeiro livro Tudo é rio.

Não é o Rio boêmio dos artistas da Lapa, nem o rio Nilo cálido que corta o Egito. Não há samba nem colores, há correntezas. É o rio que rasga todos nós, sangra, vai lento, devagar, rápido até desembocar ruidosamente em algum lugar, desabrochando emoções. Aquelas crenças a nós incutidas – que prova ser a melhor, de se afastar do agressor - Carla repara.

Promessa não é palavra escrita em nenhuma página, mas acontece. Os personagens são tais quais se propõem: pessoas simples do cotidiano em seus afazeres domésticos. Uma puta e uma tia megera; uma mulher casta na vida de um homem agressivo, filho de pai hostil; um coser de pedrinhas em tecido mesquinho. E amor, muito amor.

Carla não é feliz ao recontar estereótipos. A casta é mesmo casta. A puta é mesmo puta. Até tenta dizer que são diferentes, ao afirmar que Lucy não é aquela das histórias de maus-tratos em meio a irmãs más. Lucy é sim a menina adotada que cresce em desvantagem de amor. E paga com a buceta ao tio. Alguém conhece história diferente senão dita que se casou com o príncipe? A mesma prexeca em curso. E mesmo com Dalva autonoma, a personagem resplandece em pureza até no nome D´alva.

Ciúmes doentios não têm cura. E essa é a trama que fica em suspense. Aguardamos a cada folear a segunda bofetada e a solução para Dalva; sair de casa ao encontro da mãe, seguir rotas largas ao prostíbulo, entregar-se a um novo homem. Seriam opções obvias demais, que ao final chega caprichosa demais. Às vezes torcemos por Lucy e receamos sobre Venâncio, às vezes, pensamos em Dalva, quando um milagre surge na correnteza, de promessas nunca feitas.


Livro: Tudo é Rio

Autor: Carla Madeira

Páginas: 209

Resenha: Catarina França

Editora: Record


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