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Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Veja aquela moça, a de maiô vermelho, como anda com um olhar natural de quem tem um corpo”.


Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres conta a história de amor entre Lóri e Ulisses, a partir de uma promessa que se cumpre ao final: a de um amor em pleno gozo.


Ao julgar que é no desgaste que reside a completude do amor e não no seu encontro, a transgressão do livro está em um amor que se propõe a ser inteiro para acontecer.


É um livro que demanda confiança, do qual a própria autora se julgou incapaz de escrever. Fala de espera para realização, o que incomoda de certa forma o leitor, que se vê amarrado aos confrontos da existência.


Talvez Clarice não goste do livro pela audácia do tema. Ou em razão da pouca vivência prática do que seria esse amor. Ou, ainda, pela condição de desigualdade que os personagens se colocam para vivenciá-lo.


Lóri advém do folclore alemão. Reza a lenda que era uma ninfa das águas que seduzia pescadores. E Ulisses é herói da epopeia grega, da Ilíada e da Odisseia, acostumado a vencer batalhas. Aqui os dois se encontram em vestes de pessoas comuns, na cidade do Rio de Janeiro.


No romance de Clarice, Ulisses já sabia o suficiente para amar e convida Lóri a uma passagem. Era professor de filosofia, seguro de si e pedante em muitos trechos. Ele quer alguém que lhe diga o óbvio com tom extraordinário.


Lóri é uma professora de escola primária, nem tão bela, mas convincente em seu andar descarrilado. E ele quem a auxilia nesta passagem de individualidade para a completude, como detentor de uma sabedoria particular.


Sabe-se que Clarice era viajada.


Esposa de diplomata, viveu em vários países e, quando se separou, viveu de suas crônicas, em suas crônicas em um Rio de efervescência cultural. Era mística, fora avançada em possibilidades, mas, como a maioria das mulheres, ceifada em ações.


Digo ceifada porque traz essa experiência de mulher confinada, que busca o âmago para produzir ação.


Lóri teve vivências em cinco amantes, era oriunda de família abastada e já havia conquistado a liberdade ao deixar a cidade do interior. Buscava como satisfação o amor pleno.


O encontro não é repentino. E Ulisses chega a ser antipático ao lembrá-la de que precisa evoluir, para atingir um corpo.


Lóri não tinha um corpo. Dependia de um guarda-chuva vermelho como pássaro escarlate de asas transparentes abertas para aparecer quando já não mais chovia. E de um peso de maquiagem sobre seu rosto para adquirir relevância.


Apesar das inquietudes da personagem, Clarice entende que é preciso um desenrolar sereno, para que ela possa desabrochar. E pouco a pouco vai colocando ambos na posição de amantes, ao interligar vivencias internas e externas.


Lóri se perde em devaneios a ponto de enfadar o leitor, com dúvidas de não saber se pede um táxi ou abre uma fechadura. E é lógico que a autora é permissiva com as digressões existenciais da personagem ou não seria Clarice.


A autora relata neste livro um dos mais lindos trechos de um encontro homem e mulher, ao dar pleno gozo da palavra como acontecimento.


A redenção do livro é que Lori não se realiza em Ulisses, mas a partir dele.

E engraçado Clarice perceber que a individualidade feminina transita para o próximo, enquanto a do homem transita em uma mulher, ao destacar uma ação em que a personagem compra meias e luvas para os alunos em dia frio; quando ele, então, a declara pronta.


De fato, apesar de o aprendizado estar centrado em Lóri, ambos mudam no romance para se completar.


Ulisses baixa o tom professoral na narrativa para se tornar um homem, apenas, e ela eleva seu corpo para se tornar uma mulher, apenas, neste aprendizado pelo qual a maioria de nós já passamos.


Mesmo com o demérito da autora em não gostar do livro, a obra é perfeita na compreensão de masculino, feminino e relacionamento. A noção de espera incomoda sim, mas o resultado é surpreendente.

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